Tsunami demográfico - O fantasma de Malthus (Jornal do Commercio de 20 de outubro de 2011)

Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

A Organização das Nações Unidas (ONU) acaba de anunciar ao Mundo que a população da Terra alcançou a cifra dos 7 bilhões de habitantes, três vezes mais desde que a ONU foi criada, em 1945. Mantida a mesma dinâmica, chegaremos a 9 bilhões, em 2045, produzindo enorme pressão sobre os recursos naturais e a oferta de alimentos, e pondo em cheque o conceito de desenvolvimento sustentável. Na expressão cunhada por Galbraith, da “sabedoria convencional”, vale dizer que a água será o fator escasso do século XXI.

Essa constatação sobre o caráter exponencial do crescimento populacional, feita pelos demógrafos da ONU, nos remete, inevitavelmente, à figura do economista Thomas Malthus, membro eminente da Escola Clássica Inglesa do século XIX e doublé de pastor protestante. Em seus ensaios, Malthus verificou que entre 1650 e 1850 o ritmo do crescimento populacional dobrou, na esteira da Revolução Industrial,com acentuada melhoria das condições de vida nos centros urbanos. Contudo, esse crescimento populacional não seria sustentável, pois a produção de alimentos se expandiria numa progressão aritmética, ao passo que a população aumentaria em progressão geométrica. Essa diferença de ritmos seria a causa da fome endêmica e das guerras e um “equilíbrio natural” seria alcançado em conseqüência das altas taxas de mortalidade.

Obviamente, no modelo de Malthus não havia espaço para a enorme expansão do comércio internacional de grãos, fruto da expansão do transporte marítimo e, menos ainda, para o avanço tecnológico e as inovações da biotecnologia. É da segunda metade do século XX a “revolução verde” que, através das variedades de alto rendimento, libertou a Índia da importação de arroz e deu a Norman Borlaugh o Prêmio Nobel. Num passo adiante ao da seleção de variedades, os transgênicos representaram um novo marco na agricultura.

Vistos de outro ângulo, os progressos da medicina aumentaram em muito a esperança de vida ao nascer. De Edward Jenner (varíola) a Jonas Sabin (pólio), as descobertas científicas no campo da saúde pública explicam, em larga medida, o envelhecimento das populações dos países mais desenvolvidos e de nível intermediário de desenvolvimento. Em contraste, há outros países menos desenvolvidos que ostentam verdadeiros bolsões de pobreza, como no Continente Africano, onde as guerras tribais e a fome reduzem a esperança de vida ao nascer bem abaixo dos cinqüenta anos.

Nos países mais populosos como a China e a Índia, o crescimento populacional está sendo regulado pelo controle da natalidade ou planejamento familiar. Não obstante, no caso da Índia, a população dobrou na segunda metade do século XX.

Ao examinar a dinâmica populacional, os demógrafos consideram que um país entra num estágio de “transição demográfica” quando tanto as taxas de natalidade como as de mortalidade passam a ser baixas. Esta é a situação do Brasil. Com efeito, a taxa de crescimento populacional de 3,5%, verificadas entre os Censos de 1940 e 1950, significava dobrar a população a cada período de vinte anos. Nos dias atuais, a taxa de crescimento é em média da ordem de1,17%, com acentuadas diferenças regionais: no Norte, 2,09%, no Nordeste, 1,07%, no Sudeste 1,05% no Sul 0,87% e no Centro Oeste 1,90%. Essas taxas espelham não só o arrefecimento da expansão demográfica como intenso movimento de migrações internas.

Olhando para o futuro, a transição demográfica coloca o Brasil numa posição privilegiada, dado a extensão da fronteira agrícola, o clima favorável, a abundância de recursos hídricos e o domínio da tecnologia. O País ainda conta com o chamado “bônus demográfico”, significando a grande massa de pessoas em idade produtiva, no mercado de trabalho.

Entretanto, numa visão do mundo globalizado, o Brasil não poderá sustentar sua atual situação econômica se o resto do mundo for mal, em termos de carências provocadas pelo crescimento populacional. O anúncio da ONU como antecipação do futuro é para ser levado a sério, até mesmo porque com os constantes progressos da Ciência e da Tecnologia há de haver um limite populacional que o planeta será capaz de suportar. Não basta a preocupação com a pobreza e a fome. A transição demográfica tem que ser pensada como política global, para que o fantasma de Malthus não venha a assombrar as gerações futuras.

 Jornal do Comércio, 20 de outubro de 2011

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