Choque de produtividade

Antonio Oliveira Santos, presidente da CNC

Crédito: Ascom CNC

Antonio Oliveira Santos, presidente da CNC

Não basta recompor a trajetória das contas públicas, varrendo da cena brasileira o que se convencionou chamar de 'dominância fiscal', para repor o país na trilha do desenvolvimento sustentado. É preciso que, em paralelo, mediante mudanças na estrutura da economia, se torne um país competitivo, tanto interna como externamente, o que pressupõe uma onda de investimentos bem orientados, seja em capital físico, seja em capital humano.

Essas reflexões são ditadas por um estudo sobre produtividade, elaborado por seleto grupo de economistas da Fundação Getulio Vargas. Nesse texto, a razão entre recurso empregado e resultado obtido, isso é, a produtividade, abrange determinado grupo de países e seus principais setores de atividade econômica, agropecuário, indústria e serviços que se relacionam com o índice de produtividade total. A referência para fins de comparação são os Estados Unidos, mas no rol dos 11 países listados estão nações desenvolvidas como França e Japão e emergentes como Índia e México, além do Brasil, principal objeto do ensaio.

Em termos de produtividade total, a dos Estados Unidos é 6,1 vezes superior à do Brasil. Na agropecuária, 13,9; na indústria, 5,7; e, nos serviços, 5,4 vezes mais alta. Em relação ao conjunto dos 11, a produtividade total é 3,2 vezes superior à do nosso país, 5,3 acima na agropecuária, 2,7 maior na indústria e 3 nos serviços. Somente a Índia tem produtividade inferior à do Brasil, total ou setorial. Em contraste, o México, tanto nos três setores como no agregado produtividade total, demonstra nítida superioridade em relação ao Brasil.

A produtividade total da força de trabalho de qualquer país está determinada pela distribuição entre os três setores, pelo instrumental representado pelo capital físico e pela qualificação que resulta do investimento em educação. Na hora presente, nossa maior debilidade para alcançar maior produtividade do trabalho está concentrada na baixa eficiência da infraestrutura econômica, sobretudo no sistema de transporte, quer rodoviário, quer urbano, medida pelo número de horas perdidas.

Essa deveria ser, a nosso ver, opção clara do governo para priorizar os projetos que vão compor o Programa Avançar, criado em substituição ao antigo PAC, do governo Dilma Rousseff. Da mesma forma, seria fundamental dar a devida atenção aos investimentos em educação e aos avanços da inteligência artificial, com vistas ao aumento da produtividade.

Os avanços tecnológicos vêm modificando as condições e locais de trabalho, inclusive no que se refere à questão presencial. Apenas um exemplo. Problemas complexos que surgem durante a execução de obras de engenharia podem ser resolvidos pela via da conferência eletrônica, sem a necessidade de deslocamentos no espaço e consequente economia de tempo. Um claro aumento da produtividade dos engenheiros envolvidos na busca de solução para o problema.

Essas reflexões sobre o impacto da TI incidindo em novas formas de associar o fator trabalho ao fator capital, no sentido físico de máquinas e instalações, deveriam estar, na hora presente, na mente de nossos legisladores quando se discutiu a flexibilização da legislação do trabalho. Trazer tal legislação dos idos dos anos 1930 para a realidade do século 21 também é fator importante para compor o choque de produtividade de que o país tanto necessita.

Correio Braziliense de 18 de julho de 2017

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