Formação das expectativas (Jornal do Commercio de 18 de março de 2016)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

No campo econômico, as expectativas dos agentes em relação ao futuro têm o condão de se transformar no mundo real. Tendo como pano de fundo a queda do PIB da ordem de 3,8%, em 2015, e de uma nova queda da mesma proporção já estaria “contratada” para 2016. O pessimismo em relação ao comportamento futuro da economia está aprofundando a recessão, cuja face mais perversa é o crescente nível do desemprego.

Esse clima de desalento está configurado em indicadores antecedentes, assim chamados porque buscam prever a marcha da economia. Entre tais indicadores, destacam-se o Índice de Confiança do Consumidor calculado pela FGV e os Índices de Confiança do Empresariado na área do Comércio e da Indústria, calculados respectivamente pela CNC e CNI. Os últimos valores divulgados (janeiro de 2013) apontam para o índice 67,9 no caso do consumidor, 80,9 e 38,5 para o empresariado do comércio e da indústria, respectivamente. Os dois primeiros índices têm como linha de corte, que separa o otimismo do pessimismo, o índice 100 para o comércio e o índice 50 para a indústria. Qualquer que seja o índice predomina o pessimismo em relação ao futuro.

Quais seriam os fundamentos e as razões desse pessimismo, agora cristalizado num quadro de recessão? Antes de tudo, o descumprimento da meta de inflação e a revisão para menos do superávit primário, no âmbito fiscal.

Nos últimos anos, o centro da meta de inflação de 4,5% ao ano não foi alcançado e, sim, substituído, dada a margem de tolerância de dois pontos percentuais, pelo seu limite superior de 6,5%. No momento atual, a taxa de inflação rompeu a fronteira psíquica dos 10% ao ano, como síntese da alta dos preços.

Quanto ao superávit primário, instrumento para manter a dívida púbica sob controle, em anos recentes oscilou entre 2 e 3% do PIB mas, depois de estimar 1,2% para este ano de 2016, a proposta governamental é de reduzi-lo para 0,5% do PIB. Redução Imposta no quadro recessivo pela queda de receita via impostos diante de despesas incompressíveis, por compulsórias. Que pode ainda levar à transformação do superávit em déficit primário.

Mas há mais. Os principais vetores do que se convencionou chamar de “nova matriz econômica” estão identificados nos juros mais baixos, expansão fiscal com ênfase em gastos sociais e credito abundante, este último para inflar a demanda global, o todo constituindo bizarra abordagem keynesiana. É bem verdade que os Programas de Aceleração do Crescimento (sic) contem em sua pauta investimentos na infraestrutura econômica. Mas tais investimentos como obras complexas, desdobradas em segmentos do projeto global, apresentaram claros problemas de gestão, a começar pelo atraso na emissão da licença ambiental e deficiências do projeto básico terminando no estouro dos cronogramas.

Um caso extremo é o da ferrovia Norte-Sul, cuja construção, iniciada durante a Presidência Sarney, até hoje está inconclusa e com problemas de traçado. Outros projetos são a transposição do Rio São Francisco e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste. No primeiro caso, os trabalhos começaram em 2005, o eixo Leste deveria estar concluído em 2010 e o eixo Norte em 2012. A conclusão dos dois eixos foi, primeiro, adiada para 2015 e, agora, mais uma vez adiada para 2017. No segundo caso, o da Ferrovia da Integração, os trabalhos tiveram início em fins de 2010, com previsão de término em meados de 2013, já adiado para 2018 pelo atraso cumulativo. Tais atrasos decorrem, provavelmente, da deficiência do planejamento, comprometido por motivações políticas.

Seja como for, tais atrasos, que parecem ser a regra nos investimentos de infraestrutura, têm custos diretos e custos de oportunidade, nada desprezíveis.

O assalto de que foi alvo a Petrobras, no qual o cartel das grandes empreiteiras operou como fonte dos subornos, ainda não terminou, em seus desdobramentos. Pela dimensão da empresa e sua posição na cadeia produtiva, com toda sorte de interações sobre a malha industrial, os estragos decorrentes do aparelhamento político ainda não estão totalmente estimados. O certo é que o drama da petroleira atinge severamente a economia dos Estados produtores e é uma das causas importantes do nível de desemprego. Se a tudo isso se somar a cotação internacional do barril de petróleo, o Eldorado do pré–sal pode transformar-se em miragem.

Mas há mais. A intercessão da crise econômica com a crise política tem como ingrediente a difícil relação entre Executivo e Legislativo, e a resultante de tudo isso é que um véu de incerteza cobre o Pais e repercute sobre a sociedade, moldando as expectativas do pessimismo. A única certeza é de que a reversão vai estar ainda muito longe.

 

Jornal do Commercio de 18 de março de 2016.

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