O avanço das moedas virtuais

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes

A moeda virtual é uma tecnologia inovadora que permite que pessoas ou instituições possam transferir fundos instantaneamente, de forma segura e sem intermediários. Essa moeda pode potencialmente expandir o comércio internacional, apoiar a inclusão financeira e transformar a forma como fazemos compras e negócios. Em 2015, a moeda física foi o principal meio de pagamento no mundo. Porém, países europeus já se preparam para uma nova fase, com menos dinheiro em espécie. Na Suécia, por exemplo, apenas um quinto de todos os pagamentos foi feito em dinheiro e existem lojas que já não aceitam mais a moeda viva. A Dinamarca segue pelo mesmo caminho e já anunciou que quer ser o primeiro país a eliminar oficialmente a circulação de dinheiro físico. O argumento de ambos os países é o mesmo, de que a fiscalização do dinheiro eletrônico é mais fácil e assim problemas como sonegação de impostos e lavagem de dinheiro podem ser evitados.

O sistema financeiro não está alheio às rápidas transformações tecnológicas da era digital. Não apenas os meios digitais já superaram os meios tradicionais em número de transações, como também o surgimento de novas tecnologias e a criação de novas maneiras de fazer negócio estão levando a uma ruptura nos serviços financeiros. O Fórum Econômico Mundial elencou o Blockchain – a tecnologia por trás do Bitcoin – como uma das dez principais inovações tecnológicas emergentes deste ano.

De acordo com a instituição, essa tecnologia tem o potencial de mudar a infraestrutura das finanças e seu uso pode, inclusive, revolucionar outras áreas, como os sistemas de identidade digital. A tecnologia Blockchain não se limita ao Bitcoin. Através dela é possível desenvolver e alavancar empresas de tecnologia financeira, as Fintechs, que prometem “desintermediar” os serviços financeiros, oferecendo serviços digitais, com grande transparência, rapidez, segurança e melhores condições de preços.

O Blockchain também é chamado de Distributed Ledger Technology, que pode ser traduzido para algo como “tecnologia de livro razão distribuído”, e consiste essencialmente em uma base de dados de ativos compartilhada em rede. Qualquer mudança na base de ativos é atualizada em instantes para todos os participantes da rede, e sua segurança e proteção são garantidas por um sistema de assinatura digital, por meio de chaves criptográficas. A característica principal desse sistema digital de transações de ativos é a descentralização, o que permite a realização de transações diretas e seguras sem a necessidade de um controle central.

 As chamadas Fintechs e a tecnologia Blockchain estão gerando oportunidades e novos desafios. De um lado, temos empresas que se esforçam para se adaptar a novos padrões de consumo, cada vez mais usando plataformas móveis e com engajamento cada vez maior do consumidor, por meio da economia “colaborativa” e sob demanda. De outro, temos uma tecnologia que permite simplificar o sistema de pagamentos e a infraestrutura do sistema financeiro. Neste cenário, as novas empresas de tecnologia financeira ameaçam a hegemonia financeira dos bancos, pois oferecem os mesmos serviços a um custo menor. O crédito peer-to-peer através de Fintechs, por exemplo, está se desenvolvendo rapidamente, assim como transferências internacionais de dinheiro. Entretanto, a grande maioria dos serviços de Fintechs não aceita depósitos e depende das contas dos usuários em bancos de varejo para funcionar. Ademais, esse sistema ainda não foi colocado à prova em momentos de forte contração de crédito, como a crise financeira de 2008, episódios durante os quais os credores inevitavelmente sofrem perdas.

Além das transações de ativos, a tecnologia pode também beneficiar os sistemas de identidade digital, por meio de seu sistema de assinatura digital em criptografia, além de outras características como a rastreabilidade e imutabilidade, aprimorando serviços públicos de cobrança de impostos, emissão de passaportes, registros de propriedade, entre outros.

Mesmo não ameaçando a existência dos bancos tradicionais, suas vantagens comparativas estão se reduzindo com as inovações tecnológicas, que já foram fortemente afetadas pelas mudanças regulatórias. Não por menos, ainda de acordo com o Fórum Econômico Mundial, 80% das instituições bancárias devem apresentar projetos utilizando tecnologia DLT até 2017. Essas tecnologias também podem contribuir para inclusão financeira. No Brasil, o nível de penetração do smartphone na população já é mais alto que o da média mundial e, a partir de 2015, as transações pelos canais digitais internet e mobile banking ultrapassaram mais de 50% do total, em relação a outras modalidades.  O comércio é a principal atividade econômica que apresentará grandes ganhos de produtividade com as novas tecnologias financeiras virtuais, já que os custos de transação deverão diminuir bastante.

Sobre o Autor

Carlos Thadeu de Freitas Gomes

Economista-chefe da CNC e ex-diretor do Banco Central.

Comments

0

Os comentários serão moderados, portanto evite o uso de palavras chulas, termos ofensivos ou comunicação vulgar. Se tiver alguma dúvida sobre o tema abordado aqui, use a nossa Área de Atendimento. Talvez a resposta já esteja lá.

Post new comment

The content of this field is kept private and will not be shown publicly.