1 March, 2007

PIB baixo acelerou mudança no BC

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Em nota lacônica, de não mais de 5 linhas, o Banco Central (BC) informou na noite desta quinta-feira a saída do diretor de Política Econômica, Afonso Bevilaqua, um dos "falcões" responsáveis pela desaceleração no ritmo de queda da taxa de juros. O documento atribui o gesto a motivos pessoais. "Após quase quatro anos integrando diretoria do BC, Afonso Bevilaqua pretende se dedicar a novos projetos profissionais", diz a nota do BC. A decisão, contudo, coincide com a divulgação de um crescimento de 2,9% no Produto Interno Bruto em 2006, resultado que deixa o Brasil perto da lanterna na América Latina e no Caribe, superior apenas ao Haiti, à Guiana e à Jamaica.


"À primeira vista, o resultado pífio do PIB acelerou as mudanças, embora só com a escolha do substituto e as decisões futuras se tenha um quadro mais preciso", argumenta o analista de risco político Murillo de Aragão, um dos mais requisitados pelos bancos de investimento.


Co-autor com Bevilaqua de um estudo justificando as opções cautelosas do BC, o diretor de Estudos Especiais, Mário Mesquita, passará a acumular, por tempo indeterminado, a diretoria de Política Econômica, até então a cargo do colega afastado na quinta-feira. A preferência do presidente do BC, Henrique Meirelles, seria a nomeação definitiva de Mesquita, que asseguraria a continuidade da orientação conservadora adotada até agora. Em rápida entrevista coletiva após a divulgação da nota, Henrique Meirelles disse que a política monetária não seria mudada. "A política não é de um ou outro diretor. As decisões do Copom são colegiadas e tomadas de acordo com procedimentos técnicos", argumentou. No esforço para minimizar o impacto da saída de Bevilaqua, o presidente do BC chegou a acenar com a presença do diretor demissionária na próxima reunião do Copom


Meirelles disse ainda que não temia tornar-se o próximo alvo do "fogo amigo", com a saída de Bevilaqua, professor da PUC-Rio, instituição de onde saíram os pais do Plano Cruzado e do Plano Real, que ditaram a política econômica nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. "Ele (o presidente Lula) nunca me abandonou", disse Meirelles, ao responder sobre críticas partidas do próprio governo.


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, contudo, estaria trabalhando pela nomeação para o BC do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Demian Fiocca, mais próximo aos "estruturalistas", como o próprio Mantega, Tarso Genro e Dilma Rousseff. Depois de deixar o Planalto, em audiência com o presidente Lula, o ministro Mantega tinha um jantar marcado com Demian Fiocca.


O substituto, qualquer que seja, terá de passar pelo crivo do Senado. Ao contrário do acontecido com embaixadores e dirigentes de agências reguladoras, com os postulanetes à diretoria do BC não há precedentes de rejeição pelo Senado. A sabatina, de todo modo, deverá pôr a nu, uma vez mais, as divergências entre a equipe econômica e a bancada governista, explicitadas pelo próprio presidente da CAE, senador Aloizio Mercadante, durante a visita de Meirelles, terça-feira passada.


Ousadia


O anúncio da saída de Bevilaqua, um dos mentores da desaceleração do ritmo no corte da taxa Selic, implica certa dose de ousadia por parte do governo federal. Afinal, dois dias antes, em depoimento a convite da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Henrique Meirelles comentara que a queda brusca na Bolsa da China e seus impactos nos mercados mundiais ilustravam a necessidade de parcimônia da parte do BC. Depois de uma trégua na quarta-feira com a recuperação dos índices em Xangai, foi a vez do mercado americano voltar a cair de forma expressiva, numa queda alimentada pelos temores de uma retração mais forte na economia local e da concretização das medidas.


A mudança ocorre às vésperas de nova reunião do Copom, marcada para as próximas terça e quarta-feiras. Na saída do depoimento ao Senado, Meirelles teve de retrucar interpretações, crescentes no mercado financeiro e transmitidas a ele por repórteres de agências on line, no sentido de uma retomada do ritmo anterior de corte da taxa de juros, de 0,5 ponto percentual a cada encontro. Essas apostas seguem minoritárias nos mercados futuros, mas tendem a ser alimentadas pelo temor de pressões políticas sobre o BC.


Na manhã de quinta-feira, em encontro com jornalistas, o presidente Lula afirmara que a equipe econômica é intocável, rebatendo com firmeza especulações sobre a saída de Meirelles, alimentadas por dirigentes do PT. A manutenção dos nomes-chave, por si só, indicaria a reafirmação de conceitos como a busca do superávit primário, o controle dos gastos públicos, a redução da relação dívida/Produto Interno Bruto e a liberdade crescente de movimentação de divisas, tão caros ao mercado financeiro. Lula evitou admitir de público a extensão de sua insatisfação com o desempenho da economia, para não dar munição à oposição nem alimentar o "fogo amigo" contra a equipe.


Reservadamente, ao indicar o pai da moratória de 1987, Paulo Nogueira Batista Júnior, para o cargo na direção executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI) tradicionalmente reservado ao Brasil e chancelar o anúncio da saída de Bevilaqua às vésperas do Copom, o presidente sinalizou de forma mais clara o quanto está se esgotando sua paciência com a demora na decolagem definitiva da economia brasileira.


Insatisfação


O timing do anúncio da mudança, por mais que o cárater colegiado da diretoria do BC possa relativizar seu impacto, sugere que por um momento a insatisfação com o crescimento pífio superou a preocupação com a instabilidade. Seria a primeira vez, ao longo dos dois mandatos de Lula, que esse tabu, herdado do tucanato, se quebraria. Quando Eduardo Loyo anunciou sua disposição de sair da representação brasileira no FMI, Bevilaqua foi cogitado para o seu lugar. Perdeu a vaga para um dos mais duros críticos do BC, Paulo Nogueira Batista Júnior. Meirelles negou a relação entre este fato e a decisão de Bevilaqua de pedir o boné às vésperas do Copom.


O presidente do BC disse ter sido procurado somente na quinta-feira pelo diretor de Política Econômica e informado de seu desejo de deixar o posto. "Isso não era um assunto para, depois de tomada a decisão, aguardar para anunciá-la", argumentou. Se a intenção era evitar especulações, o resultado é duvidoso. Desde a semana anterior, interlocutores freqüentes do presidente Lula, parlamentares da base governista e diretores de banco de investimento já tinham como líquida e certa a saída de Bevilaqua, no rastro das pressões do PT. Meirelles, que se orgulha de ter guiado as expectativas do mercado e domado a inflação para abaixo da meta, desta vez foi o último a saber, pelas suas próprias palavras.


Para economistas, política monetária não será alterada


Economistas receberam ontem com estranheza o anúncio da saída de Afonso Bevilaqua da diretoria de Política Econômica do Banco Central, apesar das especulações, nas últimas semanas, sobre uma possível demissão do diretor. Eles afirmaram que o momento seria inadequado, às vésperas de uma reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) e em plena crise no mercado financeiro internacional.


Os economistas afirmaram, contudo, que a saída de Bevilaqua não irá alterar a condução da política monetária, uma vez que as metas para o ano já foram estabelecidas. Segundo Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), nada muda na próxima reunião do Copom, já que a taxa básica de juros (Selic) é decidida em colegiado. "Não acho que afete a política monetária.


O regime de metas de inflação está dada. Creio que ocorreu uma fadiga, depois de muito tempo no cargo. Era algo esperado, que ocorre em qualquer cargo público. Provavelmente, ele esperou uma definição sobre a mudança da direção do Banco Central, que não veio, e preferiu sair", diz Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central. Para José Márcio Camargo, ex-consultor do Banco Mundial (Bird) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o nome que será indicado para o posto de Bevilacqua - ocupado temporariamente por Mário Mesquita (Estudos Especiais) - revelará se pode ocorrer alguma mudança na política econômica.


"Caso Mário Mesquita permaneça no cargo, nada mudará. Eles têm linha semelhante", explica. Reinaldo Gonçalves, economista e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, continuará definindo as regras do jogo dentro da instituição. "Meirelles irá indicar alguém que segue as diretrizes do Governo. O substituto saberá os interesses que precisam ser defendidos", afirma Gonçalves.

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